Quaresma, tempo de conversão
22.02.2012Hoje a Igreja Católica dá inicio ao tempo da Quaresma. Será que estamos devidamente preparados e informados para vivenciar este tempo que nos é proposto pela Santa Igreja, como deveríamos? Qual o objetivo deste tempo? E sobre seus significados? Já é hora de deixarmos a “fé automatizada” tomar conta dos nossos ritos e pararmos de “imitar” os outros e começarmos a entender o “por quê” e “para que” dos ritos e tempos litúrgicos.
Não meu irmão, a Quarta-feira de cinzas não é o dia escolhido para apuração dos votos de escolas de samba e muito menos para curar a ressaca dos dias de excesso do carnaval. Se as pessoas tivessem real noção do significado deste dia e principalmente do tempo que ele nos propõe, certamente os dias que o antecedem seriam bem diferentes na vida de muitas famílias.
Antes de mais nada o que é Quaresma? Esta palavra, originária do latim, significa “quadragésima” ou “quarenta dias”, e que é a tradução do termo grego “Tessarakoste” que também significa “quadragésimo”, com uma íntima ligação com outro termo grego e que denomina outra festa litúrgica muito importante para nós Cristãos Católicos Apostólicos Romanos que é “Pentekoste” em menção ao qüinquagésimo dia (50) após a festa da Páscoa Cristã.
A menção da Quaresma ao número 40 refere-se aos 40 dias em que Jesus Cristo passou em retiro no deserto (cf. Mt 4,1; Mc 1,12; Lc 4,1). Jesus não foi ao deserto para fazer turismo e muito menos para provar para alguém que ele era um “iron man”. Jesus estava em retiro se preparando para sua vida pública de pregação do reino e do amor de Deus. Uma grande missão sempre exige de nós uma preparação à altura. Foi o que Jesus fez. O tempo que viria era tão importante que fez com que Ele se retirasse e jejuasse por 40 dias (cf. Lc 4,2). Aqui já podemos notar 02 grandes significados deste tempo Quaresmal: seu significado e a prática do jejum. O grande objetivo da Santa Mãe Igreja é nos aproximar do sacrifício de Jesus, nos permitindo também vivenciar um tempo preparatório para a grande festa da Páscoa de Nosso Senhor, que não só dá sentido a nossa fé como a justifica! Não há como vivenciar a festa da Páscoa sem antes passar por este importante momento de reflexão, renúncia e conversão. A Quaresma, antes de qualquer outro sacrifício feito por nós, precisa ser um tempo marcado pela vontade de ser melhor e por uma busca sincera, verdadeira e real de conversão.
Para dar inicio a estes 40 dias de preparação para a Festa da Páscoa de Cristo, a Igreja nos propõe a Quarta-feira de Cinzas. Você sabe o significado das cinzas neste dia tão especial? O próprio Jesus fez uma menção às cinzas quando disse: ”Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e as cinzas.” (cf. Mt 11,21). O Antigo Testamento faz diversos relatos ao uso das cinzas pelo Povo de Deus, em sinal de arrependimento e penitência. Vejamos algumas citações Bíblicas do emprego das cinzas:
1. No livro de Ester, Mardoqueu se veste de saco e se cobre de cinzas quando soube do decreto do Rei Asuer I (Xerxes, 485-464 antes de Cristo) da Pérsia que condenou à morte todos os judeus de seu império. (cf. Est 4,1).
2. Jó (cuja história foi escrita entre os anos VII e V antes de Cristo) mostrou seu arrependimento vestindo-se de saco e cobrindo-se de cinzas (cf. Jó 42,6).
3. Daniel (cerca de 550 antes de Cristo) ao profetizar a captura de Jerusalém pela Babilônia, escreveu: “Volvi-me para o Senhor Deus a fim de dirigir-lhe uma oração de súplica, jejuando e me impondo o cilício e a cinza” (cf. Dn 9,3).
4. No século V antes de Cristo, logo depois da pregação de Jonas, o povo de Nínive proclamou um jejum a todos e se vestiram de saco, inclusive o Rei, que além de tudo levantou-se de seu trono e sentou sobre cinzas (Jn 3,5-6).
Estes exemplos retirados do Antigo Testamento demonstram a prática estabelecida de utilizar-se cinzas como símbolo (algo que todos compreendiam) de arrependimento.
Agora que sabemos o significado do tempo da Quaresma e de seu marcante e importante inicio a partir da Quarta-feira de Cinzas, podemos traçar uma meta mais ousada para viver estes 40 dias que antecedem a grande Festa da Páscoa de Jesus. Novamente temos que ter o cuidado de não banalizar o rito e a liturgia deste tempo tão importante e bonito, deixando que ele se transforme em um mero momento de privação sem objetivos concretos de mudança de vida. De nada adianta cobrir-se de cinzas, saber do significado do tempo liturgico a nós proposto e não buscar verdadeiramente um processo verdadeiro de conversão e mudança (“metanóia”) de vida. Nos tempos atuais acrescento que precisamos ter muito mais radicalidade para conseguirmos viver este tempo como ele nos é proposto. Você pode escolher entre simplesmente “passar” pela Quaresma ou deixar que ela transforme você. A escolha não é fácil, porém é necessária. Fazer jejum só por fazer, para imitar alguém, para aproveitar e “perder uns quilinhos” ou ainda apenas porque estão lhe “obrigando”, não gerará em nós o maior benefício da Quaresma: a conversão sincera do coração! Não faça jejum só porque estão lhe pedindo. Consagre este seu sacrifício em prol de uma vida diferente quando os 40 dias terminarem! Jesus não foi para o deserto sozinho! Como podemos ver nos Evangelhos sinóticos ele foi para seu retiro conduzido pelo Espírito Santo (cf. Lc 4,1). Por isso não podemos correr o risco de vivenciar este tempo de Quaresma e fazermos qualquer jejum ou abstinência sem antes sermos, como Jesus o É, cheios do Espírito Santo! É o Espírito Santo quem nos convence do pecado (cf. Jo 16,8)! Por isso não queira vivenciar este tempo sem Sua restauradora e iluminadora presença!
Para finalizar, peço a Jesus Cristo que derrame sobre você, caro leitor, a força motriz de toda a conversão do coração do homem, que é o Espírito Santo! Que você possa se encher deste sopro de vida que é o Espírito Santo, e que Ele, como Deus que é, possa conduzí-lo também ao deserto lhe conferindo a fortaleza necessária para resistir ao demônio, como Jesus o fez, e poder chegar no dia da Páscoa enterrando tudo que é velho e vicioso em sua vida, podendo celebrar com Jesus uma vida nova em folha, livre das fraquezas e dos vicios de 40 dias atrás!
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, rogai por nós!
Seu irmão,
Alan Cota.
Fonte: Alan Cota


